LINK PARA O LIVRO CONCEITO DISKIN/ENKIN = RUPTURA/RETECIMENTO DE LAÇOS

Diskin, Anatomia de uma Ruptura de Claudio Vieira da Silva – Livros no Google Play: Agradecimentos

Prezado(a) estudante,

Chegamos ao fim de nossa jornada aqui no Imunoverso, mas, como em todo processo de aprendizado profundo, este é apenas um novo começo. Se percorremos este caminho juntos, foi porque compartilhamos a fascinação pela complexa dança da vida e da defesa que é a imunologia. E, espero, compartilhamos também a coragem de fazer as perguntas difíceis.Ao longo de nossos encontros, dissecamos uma lógica persistente de crueldade que estruturou o mundo moderno. Chamei essa lógica de diskin: o rompimento ativo e estratégico de laços — sociais, ecológicos, epistêmicos e cosmológicos — para facilitar a extração e o poder. Vimos como esse projeto se globalizou e se racializou no período colonial, apartando povos de suas terras, de suas comunidades e, crucialmente, de seus próprios sistemas de conhecimento. Fomos, como vimos, educados sob a égide de uma “História Única”, uma narrativa eurocêntrica que nos legou um cientificismo profundamente tecnicista.Reafirmo o que discutimos: isto não é, de forma alguma, um ataque à ciência moderna. Suas conquistas são extraordinárias e inegáveis. Contudo, a honestidade intelectual que nos define como cientistas nos impõe a tarefa de analisar criticamente como a lógica do diskin persiste em nossas práticas, mesmo nas mais avançadas.Como vimos em nossas discussões finais, essa mesma lógica se reconfigura sob novos e sedutores nomes. Conceitos como “medicina de precisão”, “One Health” (Saúde Única) e “saúde baseada em satisfação” surgem com a promessa de uma visão mais integrada. No entanto, em uma sociedade estruturada pela precarização e pelo individualismo, eles correm o risco imenso de se tornarem apenas os netos sofisticados de uma sabedoria ancestral que sempre foi holística. A medicina de precisão, quando apartada da saúde coletiva, aprofunda o abismo social. A “Saúde Única”, ao ignorar os saberes dos povos que são os guardiões dos ecossistemas, pode se tornar mais uma forma de diskin epistêmico. A “saúde baseada em satisfação” converte o cuidado em mercadoria, rompendo o laço humano da relação terapêutica.Nesse cenário, como alertamos, o Homo sapiens se revela o mais temido parasita, operando uma destruição intra e interespécies sem precedentes, culminando na ruptura ecológica que é a crise climática. As novas ações em saúde, se não forem criticamente vigiadas, se tornarão mais do mesmo, perpetuando o ciclo de exclusão.Mas, se esta foi a anatomia da crueldade que estudamos, a tarefa que agora se impõe a cada um de nós é a da sua contraparte: o enkin. O fomento ativo de laços, a criação de parentesco, a insurgência dos saberes e a luta incessante pela reconexão. Este é o trabalho que nos espera para além dos muros deste site.A tarefa que nos cabe agora, ao sairmos destes encontros, é a de nos tornarmos agentes conscientes de enkin. É a de levar essa consciência para os laboratórios, para as salas de aula e para os ambulatórios. Significa, ao analisar um novo fármaco, perguntar: quem ele realmente irá curar? Significa, ao desenhar um projeto de pesquisa, valorizar e incluir outras formas de saber. Significa entender que a saúde de uma célula está, em última instância, conectada à saúde da floresta e à justiça social.Levem daqui não apenas o conhecimento sobre o sistema imune, mas a convicção de que a descolonização, em seu sentido mais profundo, é um projeto de retecer o mundo. Que sejamos a geração de cientistas que, ao entender a anatomia de uma resposta imune, também compreende a anatomia de uma ruptura social e se compromete, ativa e afetuosamente, com a reparação. O trabalho de retecer os laços é o mais urgente de nosso tempo.Obrigado por terem feito esta jornada comigo. Agora, o trabalho de vocês começa.Com um abraço afetuoso e solidário,

Claudio Vieira da Silva