HOMO PARASITICUS

ARTIGOS PUBLICADOS ANALISANDO AS HERANÇAS DO VOCABULÁRIO EM IMUNOLOGIA

ARTIGO: THE COLONIALITY OF POWER IN IMMUNOLOGY

https://link.springer.com/article/10.1007/s42438-026-00631-x

ARTIGO: A DECOLONIAL LEXICON FOR IMMUNOLOGY

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“This heart is the best part of me”

Precisamos ter sempre em mente algo que sequer estamos habituados a considerar:

“Antes da invasão colonial promovida por aqueles de quem também descendemos, este território já era habitado por centenas de povos com complexas e diversas formas de organização sociopolítica. Não eram ‘selvagens’, nem menos sapiens do que qualquer europeu padrão. O próprio continente que chamamos de ‘América’ — nome que, pretensamente, um único país do Norte Global usurpou para se definir — abrigava, de ponta a ponta (Américas do Norte, Central, do Sul e Caribe), populações plurais, altamente desenvolvidas e estruturadas.

Não se trata de uma romantização ingênua: nossa espécie é, por natureza, atravessada por disputas e competições, e aquelas sociedades tinham suas próprias complexidades e conflitos. Contudo, essa visão binária, mercantil e predatória de mundo não governava sua existência. O ponto central a ser destacado é a relação ontológica que esses povos mantinham com as outras formas de vida. Eles não parasitavam a terra, não acumulavam bens desenfreadamente e desconheciam a ideia de propriedade privada, pois compreendiam que o chão pertence ao planeta e a todos os seres viventes — uma lógica de pertencimento, e não de posse.

O que somos hoje é, em grande medida, resultado daquilo que nos foi imposto por uma repetição encadeada de violências, travestida pela fantasia da ‘conquista’, do ‘progresso civilizatório’ e da catequese. Dezenas de milhares de indígenas foram dizimados em nome de Deus pelo simples fato de recusarem a conversão e a escravidão. Em um profundo paradoxo histórico, aqueles que pregavam a fé cristã — e que deveriam ser os primeiros a respeitar a alteridade — promoveram alguns dos maiores genocídios da humanidade. É justamente nesse longo processo de expropriação, epistemicídio e extração que o colonialismo inventa o conceito sociopolítico de raça, uma ferramenta deliberada para desumanizar africanos e indígenas, relegando-os à condição de sub-humanos. Evoco esse percurso histórico para situar a falácia das nossas ‘verdades e certezas’ absolutas.

O saber que se tornou hegemônico foi construído a partir de um discurso que aparta, censura e silencia o ‘Outro’ não branco, apagando suas práticas e cosmovisões. Para esses povos, a relação com o ambiente era de parentesco; a natureza não era um recurso a ser extraído, mas uma teia da qual se era parte. Hoje, depois que a lógica do capital e do acúmulo conduziu o planeta ao colapso ambiental, a ciência hegemônica ‘inventa’ e apresenta, com vestes de bondade samaritana, a estratégia da Saúde Única (One Health). Essa proposta nada mais é do que uma reembalagem institucional daquilo que os povos originários sempre souberam e viveram: a indissociabilidade entre a saúde humana, animal e ambiental. Portanto, precisamos questionar — e descolonizar — profundamente a nossa história e a própria ciência.”

O Futuro que Não Foi