Fisioterapia
No início do século XXI, um movimento crescente na academia e no ativismo começou a questionar as narrativas e estruturas de poder herdadas do colonialismo. Essa “descolonização do conhecimento” busca desafiar as perspectivas eurocêntricas dominantes e ampliar vozes e saberes historicamente marginalizados. No campo da saúde, isso se traduz em uma crítica à chamada “medicina tropical” e às hierarquias na saúde global, que muitas vezes perpetuam desigualdades. Busca-se, em vez disso, valorizar conhecimentos locais e comunitários e construir uma prática de saúde mais equitativa e culturalmente sensível.
Uma das áreas em que essa perspectiva decolonial oferece uma nova e poderosa lente é a imunologia. Tradicionalmente, a imunologia tem sido descrita através de metáforas militares: o corpo como um campo de batalha, o sistema imunológico como um exército, e os patógenos como “invasores” a serem destruídos. Essa linguagem bélica, embora útil em alguns contextos, pode ser limitante e até mesmo prejudicial. Ela pode levar a uma visão excessivamente agressiva da intervenção médica e não captura a complexidade das interações entre o nosso corpo e os microrganismos.
A fisioterapia, por sua vez, está cada vez mais reconhecida por seu papel na modulação da resposta imune. A prática de exercícios físicos, a gestão do estresse e da dor, e a promoção de um sono de qualidade são fatores que influenciam diretamente o funcionamento do sistema imunológico. Além disso, a fisioterapia tem um potencial enorme para atuar em comunidades carentes e marginalizadas, que muitas vezes enfrentam barreiras significativas de acesso a serviços de saúde.
É na confluência desses três campos, a crítica decolonial, uma nova compreensão da imunologia e o papel crescente da fisioterapia que se inserem as oito histórias que se seguem. Elas exploram, através da ficção distópica, do drama e da violência urbana, as complexas interações do corpo com o seu ambiente, interno e externo. Em vez de uma “guerra”, as doenças são retratadas como “encontros infortunados” ou “dissonâncias” no delicado equilíbrio do organismo. Os componentes do sistema imunológico não são “soldados”, mas sim mediadores e comunicadores em uma rede complexa. Os patógenos não são meros “invasores”, mas sim parte de um ecossistema com o qual interagimos constantemente.
Cada história se aprofunda em um aspecto específico da resposta imune, desde a imunidade inata até as complexas doenças autoimunes e a resposta a tumores e transplantes. E em cada uma delas, um fisioterapeuta é o protagonista, navegando não apenas pelos desafios clínicos de sua profissão, mas também pelas realidades sociais de um mundo marcado pela segregação e pela desigualdade. As histórias buscam, assim, não apenas educar sobre a ciência da imunologia de uma forma inovadora, mas também provocar uma reflexão crítica sobre como entendemos a saúde, a doença e a justiça social em um mundo que ainda luta para se libertar das amarras do pensamento colonial.
“Corpos em Dissonância” é uma coleção de oito histórias que mergulham nas profundezas da imunologia através de uma lente decolonial, explorando as práticas da fisioterapia em cenários de distopia, drama e violência urbana.
Esqueça os exércitos de células e os invasores microscópicos. Aqui, os processos imunológicos são narrados como complexas coreografias de comunicação, reconhecimento e, por vezes, trágicos mal-entendidos. A doença não é uma batalha a ser vencida, mas uma dissonância a ser compreendida e, talvez, harmonizada.
Cada conto apresenta um fisioterapeuta como protagonista, um profissional que trabalha na fronteira do toque, do movimento e da recuperação. Eles atuam em cidades fraturadas, marcadas pela segregação e pela injustiça, onde o acesso à saúde é um privilégio e a biologia de cada indivíduo é inextricavelmente ligada à sua condição social.
Prepare-se para acompanhar jornadas que detalham a imunidade inata, a apresentação de antígenos, as respostas adaptativas humoral e celular, os dilemas das vacinas, os mistérios da tolerância imunológica, as agonias das hipersensibilidades e doenças autoimunes, a complexa relação com tumores e transplantes, e os efeitos devastadores da inflamação crônica.
“Corpos em Dissonância” é um convite a repensar a linguagem da saúde, a reconhecer a interconexão entre o corpo, a mente e a sociedade, e a vislumbrar uma prática clínica mais humana, contextualizada e verdadeiramente curativa.
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Corpos em Dissonância de Claudio Vieira da Silva – Livros no Google Play: HistorinhasOdontologia
A boca, em sua essência, é um lugar de encontro. É a fronteira onde o mundo exterior – ar, alimento, palavras, afeto – encontra o universo interior do corpo. É um ecossistema de uma complexidade estonteante, lar de centenas de espécies de microrganismos que vivem em um equilíbrio delicado e, na maior parte do tempo, mutuamente benéfico. No entanto, por séculos, a narrativa dominante na saúde, e em particular na odontologia, tem sido moldada por uma linguagem de conflito.
Sob essa ótica, a boca é um campo de batalha. A placa bacteriana é um exército inimigo. A cárie, uma invasão. A gengivite e a periodontite, uma guerra de trincheiras. As células imunes são soldados, os patógenos são invasores, e os tratamentos são armas para esterilizar e erradicar. Essa metáfora bélica, herdada de uma visão de mundo colonial que classifica, hierarquiza e busca dominar a natureza, embora tenha impulsionado avanços, também nos limitou. Ela nos ensinou a ver a doença como uma falha moral ou higiênica e o corpo como um território a ser defendido, em vez de um sistema a ser compreendido em sua busca por harmonia.
Uma perspectiva decolonial nos convida a repensar essa narrativa. Ela nos pede para abandonar a linguagem da guerra e adotar a linguagem dos encontros, dos diálogos e, por vezes, das dissonâncias. A doença periodontal não é simplesmente uma invasão bacteriana, mas o resultado de um diálogo que deu errado entre a comunidade microbiana (o biofilme) e a comunidade celular do hospedeiro, muitas vezes em um “solo” (o corpo) já alterado pelo estresse, pela má nutrição, por desigualdades sociais e pela inflamação sistêmica.
A odontologia, nesse novo paradigma, transcende o reparo mecânico do dente. O futuro cirurgião-dentista é um modulador de ecossistemas, um regente da harmonia oral. Ele ou ela entende que a saúde oral não pode ser desvinculada da saúde sistêmica e que a biologia de um paciente é inseparável de seu contexto social, cultural e ambiental. As práticas de higiene não são atos de esterilização, mas de cultivo de um biofilme saudável. Os tratamentos não visam a aniquilação, mas a restauração do equilíbrio.
É nesta intersecção – entre uma nova compreensão da imunologia oral e uma crítica decolonial da prática da saúde – que esta coleção de seis histórias se insere. Cada conto é protagonizado por um estudante ou jovem profissional de odontologia, navegando em cenários de distopia, drama e segregação, onde a saúde bucal é um espelho das fraturas da sociedade.
Em vez de uma guerra contra a placa, exploraremos os encontros infortunados que levam à disbiose. As células imunes não são soldados, mas mediadores e comunicadores em uma dança complexa de reconhecimento e tolerância. A perda de um dente não é uma derrota, mas uma profunda alteração ecológica com consequências sistêmicas. Desde a primeira resposta imune na gengiva até as complexas interações em doenças autoimunes com manifestações orais, a resposta a biomateriais, a imunologia dos tumores de boca e a profunda conexão entre a saúde oral e a inflamação crônica, estas histórias buscam não apenas educar sobre a ciência de uma forma instigante, mas provocar uma reflexão. Convidamos você, futuro profissional da saúde, a ver a cavidade oral não como uma fortaleza a ser defendida, mas como um jardim a ser cultivado, um lugar de encontros a ser compreendido e um diálogo a ser harmonizado.
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Diálogos do Biofilme de Claudio Vieira da Silva – Livros no Google Play: Historinhas



















